Brasil deixa de ser rival e torna-se modelo para os argentinos
Larry Rohter
The New York Times
Em Buenos Aires (Argentina)
Argentina e Brasil foram sempre o casal incompatível da América do Sul, tão diferentes e suspeitosos um do outro quanto, no passado, eram a França e a Alemanha.
Os brasileiros tradicionalmente encaram os argentinos como arrogantes e formais demais, enquanto os argentinos tendiam a desprezar os brasileiros como pessoas inferiores e mais escuras, vivendo ao deus-dará e em completa indolência tropical.
Mas isso deixou de ser verdade, pelo menos do lado argentino.
Com sua economia arruinada e o sexto presidente do país em menos de um ano implorando para deixar o cargo, os argentinos, que aprenderam uma lição de humildade, cada vez mais se comparam ao Brasil e aos brasileiros e concluem que a despeito das dificuldades recentes do país vizinho, há muito que admirar lá, da governança corporativa ao estilo de vida.
Os argentinos hoje "são como pessoas que acabam de se converter a uma nova religião e sentem que é preciso provar que sua fé é mais intensa do que a dos antigos crentes", diz Oscar Raul Cardoso, colunista de assuntos internacional do El Clarín, um dos principais diários argentinos. "Existe definitivamente uma mudança de percepção e atitude com relação ao Brasil, e não vejo recuo dessa tendência".
Indicações da chamada "onda brasileira" existem em toda parte. Os bares e casas noturnas com nomes brasileiros estão no auge da moda, e embora os argentinos tenham interesse por música brasileira desde os dias de Carmem Miranda, surgiu um novo fascínio com as danças brasileiras e com a capoeira, uma arte marcial afro-brasileira.
As matrículas em cursos de português dispararam, em parte estimuladas pela esperança de encontrar empregos no Brasil, e os programas de televisão brasileiros são transmitidos pelas redes de cabo argentinas. No mais europeizado dos países latino-americanos, até mesmo religiões afro-brasileiras como o candomblé estão ganhando terreno, com diversos terreiros agora em operação no país, freqüentados por argentinos brancos.
"Os brasileiros são mais calorosos, mais felizes e mais divertidos e abertos que os argentinos; eu diria que se sentem mais confortáveis consigo mesmos", explica Gustavo Tedesco, 38, veterinário que já visitou o Brasil seis vezes. "Precisamos aprender com eles como sermos mais cordiais e menos pedantes".
Enquanto ele e a namorada Luciana Casanova, 22, relaxam em um clube noturno brasileiro chamado Maluco Beleza, ela acrescenta: "Os brasileiros simplesmente sabem mais como gozar a vida, e não estão obcecados com o dólar. Têm seus problemas, igualmente, mas não se deixam afundar em melancolia da maneira que fazemos".
O fascínio pelas coisas brasileiras precede a crise atual, a pior na história moderna da Argentina. Mas ele se acelerou e aprofundou como resultado do colapso da economia, um evento que transformou os Estados Unidos e a Europa em espectadores, recusando-se a ajudar, enquanto o Brasil emergiu como o principal defensor e modelo para a Argentina.
Desde que assumiu o posto, em janeiro, o presidente Eduardo Duhalde apontou repetidas vezes para o Brasil como uma economia em desenvolvimento bem sucedida, especialmente depois de sua decisão de adotar câmbio flutuante, em 1999, em lugar de manter sua moeda vinculada ao dólar.
Os ministros da área econômica de Duhalde consultam regularmente seus colegas brasileiros, especialmente Armínio Fraga, o presidente do Banco Central do Brasil.
"O Brasil fez muitas coisas certas, e nós cometemos muitos erros", diz Marcos Aguinis, ex-ministro da Cultura da Argentina e autor de "O Intolerável Charme de Ser Argentino".
"Eles se tornaram uma potência industrial formidável, com uma classe empresarial imaginativa, algo que não temos", diz Aguinis. "E enquanto continuamos a lutar para superar o legado de Juan Perón, eles parecem ter sido capazes de apagar o populismo de Getúlio Vargas", o ditador brasileiro dos anos 30 e começo dos 40.
A maior parte dos analistas concorda em que o principal fator de demolição dos estereótipos sobre o Brasil foi a ascensão do turismo argentino nos anos 90, graças a um peso argentino mantido artificialmente em nível igual ao do dólar, o que permitiu que até mesmo os argentinos mais pobres viajassem ao exterior.
Como resultado, o número de argentinos que visitaram o Brasil subiu de cerca de 250 mil em 1990 para 1,75 milhão em 2000, de acordo com estatísticas do governo brasileiro.
"Antes que o turismo em massa começasse, o Brasil era como uma área escura no mapa para a maioria dos argentinos", disse Alejandro Frigerio, antropólogo e sociólogo argentino, "e ir para lá era como ir para o Timbuctu. Mas quando você aterrissa em São Paulo percebe imediatamente que o Brasil é um país sério, desenvolvido e funcional. E porque o nosso país não o é, o velho estereótipo dos brasileiros como inferiores, macacos, deu lugar a uma nova imagem, altamente idealizada".
O mais freqüente é que os argentinos retornem de suas férias no Brasil enfeitiçados pelo que viram, querendo "compreender mais e saber mais, sobre a literatura, a moda e o idioma", diz Monica Hirst, diretora do Centro e Fundação de Estudos Brasileiros. "O Brasil é percebido agora como um lugar mais sofisticado e interessante. Até mesmo o racismo contra os brasileiros decaiu enormemente".
Desde 1991, Argentina e Brasil são também os líderes do Mercosul, o mercado comum sul-americano, hoje o terceiro maior bloco comercial mundial. A associação não só "inculcou uma ideologia de irmandade e cooperação", como diz Frigerio, como também exigiu que a Argentina abandonasse suas aspirações ao posto de potência regional e reconhecesse o Brasil como "o parceiro dominante no Mercosul", a frase usada com mais freqüência nos jornais daqui.
Ainda nos anos 40, os esquemas geopolíticos grandiosos de Perón visavam ao que ele chamava de "a aliança ABC", composta por Argentina, Brasil e Chile. Ele presumia que a Argentina emergiria como líder natural do grupo, com o Brasil desempenhando papel secundário. Mas os estrategistas argentinos reconhecem agora que já que a população e a economia brasileira são cinco vezes maiores do que as de seu país, é inútil resistir à hegemonia brasileira.
"A Argentina está se tornando uma espécie de extensão do Rio Grande do Sul, parte de uma comunidade mais ampla, e isso talvez não seja tão ruim", diz Carlos Escude, autor de diversos livros sobre a política externa argentina, em referência ao Estado mais meridional do Brasil, que faz fronteira com a Argentina. "Preferiríamos não ser satélite de ninguém, mas existe muito menos oposição a que nos tornemos uma estrela na bandeira brasileira do que uma estrela na bandeira norte-americana".
Ainda que o comércio dentro do bloco tenha sido prejudicado pelo colapso da economia argentina e pelo atual tumulto no mercado brasileiro, os dois países ainda assim continuam falando em adotar uma moeda comum.
Os dois governos concordaram também em empreender missões comerciais conjuntas ao exterior e estão até discutindo a presença de diplomatas argentinos em embaixadas brasileiras na África, onde a Argentina terá de fechar muitas de suas representações como medida de economia.
Alguns poucos membros das forças armadas, especialmente os reformados, treinados desde seus dias como cadetes a ver o Brasil como um inimigo, continuam a resistir à reconciliação, da mesma forma que alguns grupos empresariais que perderam mercado para empresas brasileiras. Ainda que a posição deles seja claramente minoritária, Hirst argumenta que os brasileiros não devem presumir que a nova simpatia dos argentinos por ele é inalterável.
"Uma coisa é perceber o outro como parceiro e opção estratégica quando se está bem", diz. "Outra coisa, completamente diferente, é quando se sente que não há outra escolha, de modo que é preciso que lembremos que mesmo que essa crise derrube barreiras e preconceitos, não deixa de haver riscos".
Tradução: Paulo Migliacci
[The New York Times]
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