10.8.02

Nota de Ciro sobre FMI provoca caos no mercado
Candidato promete mudar política econômica, o que foi visto como ameaça ao acordo; entretanto, diz que administraria transição com FHC

As declarações do presidenciável Ciro Gomes, da Frente Trabalhista (PPS-PDT-PTB), dispararam o pânico no mercado, nesta sexta, um dia depois do anúncio do novo acordo com o FMI. Na quinta-feira, Ciro já havia criticado o acordo e afirmado que, com ele, o país só aumentou a sua dívida. Nesta sexta, o candidato divulgou uma nota à imprensa que aumentou ainda mais a tensão. Nela, afirma que o acordo com o FMI "talvez seja a única saída para superar, no curto prazo, a grave crise financeira que o país enfrenta". No terceiro item do comunicado, escreveu: "Reafirmo que, se eleito, a atual política econômica será substituída por outra que, subordinada à lei e aos exclusivos interesses da população, será parceira e estimuladora dos setores que produzem e trabalham". Como a maior parte do empréstimo do FMI, de US$ 24 bilhões, terá de ser honrada pelo próximo presidente, leu-se a afirmação como uma ameaça, caso ele venha a ser eleito, ao cumprimento do que foi acertado pelo atual governo.
Em sua nota, Ciro afirma, ainda, que não conhece, "nem oficial nem detalhadamente, os termos do terceiro acordo que o atual governo está celebrando com o Fundo Monetário Internacional". O presidente do Banco Central, Armínio Fraga, entretanto, conversou com todos os candidatos sobre os termos do entendimento com o Fundo.
No fim da tarde, em visita a Governador Valadares (MG), Ciro deu uma declaração conflitante com a crítica ao acordo. Disse que, se eleito, vai procurar o presidente Fernando Henrique Cardoso para administrar a transição para o próximo governo. A afirmação foi feita em resposta à pergunta sobre se iria ou não cumprir o acordo com que está acertado com o Fundo.
Pela manhã, em Uberlândia (MG), ele havia repetido sua afirmação de que será o "último brasileiro" a atrapalhar as negociações que, segundo ele, tentam consertar "o desastre provocado pelo modelo econômico". Havia dito, também, que os candidatos da oposição "não podem ser chamados a ter responsabilidade por entendimento internacional que só o governo pode fazer". Ao ser indagado sobre quais ajustes consideraria necessários no acordo, disse: "Não conheço o acordo, veja que absurdo. Não posso comentar uma coisa que não conheço. A única coisa que digo é que não tinha saída. Também não vou aceitar que se transforme um fato que é ruim para o Brasil num fato positivo. Temos de agradecer o empréstimo, mas não podemos fazer disso uma festa como a retórica oficial está querendo fazer, como se fosse uma coisa muito boa para o país".
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Serra: boatos sobre renúncia não passam de uma "grande piada"
Aliados e coordenadores da campanha negam a possibilidade de desistência; marqueteiros asseguram que vão continuar a trabalhar com o tucano, e Nelson Biondi acusa aliados de Ciro Gomes pelos rumores

Boatos sobre suposta renúncia do presidenciável José Serra (PSDB-PMDB) abalaram o mercado nesta sexta-feira. A onda, que veio atrelada a um suposto resultado da pesquisa Vox Populi ? instituto que trabalha para o candidato da Frente Trabalhista, Ciro Gomes ? na qual Serra teria caído para quarto lugar, foi desmentida por assessores do candidato e pela coordenação da campanha tucana ao longo da tarde. À noite, o presidenciável falou sobre o assunto. Para ele, a boataria é uma "grande piada" e revela falta de respeito por sua candidatura.
Também circularam rumores de que os marqueteiros de Serra, Nizan Guanaes e Nelson Biondi, deixariam a campanha. Ambos, porém, confirmaram que continuarão a trabalhar para o candidato. "Se fosse para sair da campanha, eu nem viria até aqui", afirmou Nizan ao chegar à residência de Serra em São Paulo para uma reunião. Segundo ele, os rumores de renúncia são "uma coisa normal dentro da campanha" e não passam de "especulação".
Biondi disse que o encontro avaliou a postura do presidenciável na última semana e concluiu que os ataques do tucano a Ciro devem continuar. "Vimos que estamos no caminho certo e por isso vamos prosseguir." O publicitário acusou o comitê político do candidato da Frente de plantar o boato sobre a renúncia. "É uma tática baixa que nasceu no comitê do Ciro".
Mas Rui Nogueira, da assessoria de imprensa de Ciro em São Paulo, divulgou nota respondendo às acusações. "Respeito e lamento como profissional o desespero que toma conta de uma campanha derrotada. É muito mais fácil acusar a assessoria de um candidato vitorioso do que assumir responsabilidade pelo fracasso do seu candidato. Nelson Biondi, que freqüenta a minha casa, sabe muito bem que o nosso estilo é absolutamente diferente. Eu ajo com ética. Não irei processá-lo porque ele seria condenado, e eu gosto muito do Nelson e não gostaria de estar na sua atual função", diz a íntegra do texto.
No site da campanha tucana, o presidente do PSDB, deputado José Aníbal, refutou os boatos com veemência: "A quem interessa uma sordidez dessas? Só pode ser à banda podre da campanha eleitoral e aos especuladores".
O presidente do PMDB, deputado Michel Temer (SP), disse que "não se deve especular financeiramente com base em especulações políticas". Para ele, qualquer resultado de pesquisa agora não pode ser considerado definitivo, pois o candidato tucano ainda tem muito tempo para crescer. Segundo o deputado Moreira Franco (PMDB-RJ), "renúncia de Serra, só se for para re-reeleição de Fernando Henrique Cardoso".
O vice-líder do governo no Senado, Romero Jucá (PSDB-RR), disse que a disputa eleitoral começa mesmo no dia 20, com o início da propaganda na TV. "Os resultados da última pesquisa do Ibope não são referência para uma decisão dessa. Se o Garotinho não renunciou, ainda mais o Serra, que deverá ganhar essa eleição."
Levantamento do Ibope divulgado na quinta mostra Serra em terceiro lugar, empatado com Anthony Garotinho (PSB), ambos com 11% da preferência dos entrevistados pelo instituto. Ciro ficou com 27%; e Luiz Inácio Lula da Silva (PT), com 33%.
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Justiça do Tocantins rejeita processo contra Roseana
Jader Barbalho será processado por desvio de verbas na Sudam

A Justiça Federal do Tocantins rejeitou o pedido de abertura de processo penal contra a ex-governadora do Maranhão e ex-candidata à Presidência Roseana Sarney (PFL) por desvios de verbas da extinta Superintendência para o Desenvolvimento da Amazônia (Sudam) para o projeto Usimar. A sentença foi dada pelo juiz da 2ª Vara Federal do Tocantins, Alderico Rocha Santos. O juiz determinou a abertura de processo criminal e o indiciamento na Polícia Federal do marido de Roseana, Jorge Murad, do ex-senador Jader Barbalho e de outras 23 pessoas. O projeto Usimar previa a instalação de uma fábrica de componentes automotivos no Maranhão, mas não saiu do papel.
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